72% dos fumantes brasileiros fracassam ao tentar largar o vício, mas Brasil carece de produtos para redução de danos

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72% dos fumantes brasileiros fracassam ao tentar largar o vício, mas Brasil carece de produtos para redução de danos

72% dos fumantes brasileiros fracassam ao tentar largar o vício e disseram precisar de ajuda, mas a proibição irrestrita ao vape e ao cigarro eletrônico continuam em vigor em território nacional – embora esses itens já tenham sido apontados como alternativas menos danosas ao cigarro tradicional de nicotina

*por Manuel Carrasco, da AsoVape

O debate sobre a regulamentação do vape e do cigarro eletrônico continua acontecendo de forma acalorada em países onde a comercialização desses produtos segue proibida. Muitas vezes, falta compreensão e serenidade para que todos os pontos de vista – favoráveis e desfavoráveis à entrada legal desses itens no mercado – sejam colocados à mesa de discussão.

Seja qual for o tópico, não se pode deixar de levar em consideração a posição dos fumantes adultos, em especial aqueles que fazem parte do grupo dos 72% dos brasileiros que tentam, mas não conseguem largar o vício depois de décadas consumindo maços inteiros de cigarro todos os dias, de acordo com um estudo de 2018 da Fundação para um Mundo Livre do Fumo, nos EUA1.

Embora boa parte deles concorde que deixar de fumar seria o caminho mais saudável (o mesmo levantamento aponta que 9 entre 10 fumantes no Brasil estão cientes de que fumar é perigoso), nem todos conseguem resistir a esse impulso que se tornou rotineiro ao longo dos anos – inclusive como uma forma arriscada de obter prazer e aliviar a tensão do dia a dia.

Em comum, todas as linhas argumentativas dos consumidores, da indústria do cigarro e dos especialistas em combate ao tabagismo enfrentam o mesmo adversário: os danos à saúde provocados pelo cigarro tradicional de nicotina. Não se trata de um adversário fácil de ser batido: 57% dos fumantes brasileiros que tentaram largar o cigarro disseram precisar de ajuda para isto.

Mesmo aqueles que se consideram fumantes contumazes, e que não querem ou não conseguem desistir desse hábito facilmente, consideram a hipótese de recorrer a alternativas que podem ajudar a reduzir os malefícios causados pela queima do tabaco – desde que, é claro, essas opções estejam legalmente disponíveis. Um pensamento que vale tanto para os próprios tabagistas quanto para a preocupação que eles têm com os chamados fumantes passivos. Vale lembrar que a maioria deles convive diariamente com familiares e amigos.

É nesse contexto que a indústria, respaldada por especialistas da área de saúde, defende a adoção de medidas de redução de danos como uma opção real e disponível para os consumidores de cigarros tradicionais. Mas embora o vape e o cigarro eletrônico já tenham sido apontados como alternativas viáveis para diminuir os malefícios causados pelo cigarro tradicional de nicotina ou até mesmo para parar de fumar, a proibição irrestrita a esses produtos continua em vigor em países como o Brasil.

Um estudo de 2015 da Public Health England (PHE) concluiu que cigarros eletrônicos podem ser até 95% menos danosos à saúde do que o tabaco, além poderem ajudar usuários a largar esse hábito de forma gradativa2.

Os dois estudos reforçam a importância de criar mecanismos para ajudar os fumantes a ter opções para largar o vício. Há cerca de seis anos, o Royal College of Physicians descobriu que a redução de danos tem enorme potencial para prevenir a morte decorrente do uso do tabaco. Especialistas apontam que os avanços em produtos para redução de danos são, mais do que nunca, uma questão de vida ou morte para fumantes. Na indústria do fumo, não faltam empresas que já se comprometeram em atender essa demanda em diferentes mercados – isto é, caso obtenham deles uma permissão legal.

Está mais do que na hora de popularizar o conceito de redução de danos no Brasil – e que já é adotado em países como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Reino Unido e União Europeia. O NHS (National Health Service), serviço de saúde púbica da Inglaterra, recomenda o vape para fumantes que optam por manter o hábito de fumar, mas desejam mudar para alternativas com menor risco potencial à saúde. E esse mesmo pensamento tem sido aplicado com relativo sucesso em outros segmentos, a exemplo da indústria alimentícia, que desenvolveu produtos com menos sódio, açúcar ou gordura, por exemplo.

Enquanto a proibição ao vape e ao cigarro eletrônico continuar em vigor no Brasil, os consumidores adultos de cigarro tradicional ficarão sem uma alternativa legal para reduzir os danos causados pelo vício e, tão alarmante quanto, se verão obrigados a recorrer ao mercado paralelo para acessar esses itens – o que inviabiliza a garantia da procedência e da qualidade.

Esse é um exemplo de ponto vista que é importante demais para ser ignorado nos debates sobre a regulamentação desses produtos no Brasil, conforme citado no começo desse artigo. Não é razoável limitar o tabagismo somente ao cigarro tradicional de nicotina, único produto legalmente distribuído para consumidores adultos no país, enquanto ele segue provocando danos graves à saúde de milhões de fumantes e das pessoas à sua volta. É preciso considerar a possibilidade de abrir caminho legal para alternativas potencialmente menos danosas para todos.

*Manuel Carrasco é membro do Conselho de Administração da AsoVape (Associação Colombiana de Vapers)

Fontes:

1.    Estudo realizado pela Fundação para um Mundo Livre de Fumo (EUA), 31/05/2018

2.    Public Health England, “Cigarros eletrônicos são cerca de 95% menos prejudiciais do que o tabaco, estima revisão histórica”, 19/08/2015